04 julho 2009

Guitarras sorridentes

Sinto o frio a trespassar as paredes do prédio inclinado
Vejo as nuvens ameaçadoras no alto do azul
E a mota deslizante no escape metalizado no asfalto
Ouço uma voz lancinante a pedir o regresso do filho
Que se perdeu num liquido azul-esverdeado escondido em qualquer proveta
Feita de vidro opaco
Com raiva pego no meu taco
Decido fazer a razia da verdade
Que nunca teve idade
Começo a partir cabeças, jarros de vinho, enfim tudo o que aparecia pela frente.
Dou por mim
A ser preso pela autoridade
Que se sem coragem
Me levou de rastos pela cidade
Que de felicidade
Chorava
A perda do filho querido que não era eu

A luta
Era, apenas, minha
Podia morrer em qualquer sitio
Num dia claro e caro
Que a cidade não se importava
Apenas as guitarras sorriam

Podia morrer a dançar o Vira
E a tocar na harmónica esquecida
Na gaveta da professora
Deslambida
Que a cidade não se importava
Apenas as guitarras sorriam

Na Avenida dos Aliados
Calçado com sapatos de verniz
Cordões atados
Casaco de cabedal
No dedo um dedal
A indicar o caminho contrário ao pedestal
Podia morrer em qualquer sitio
Que a cidade não se importava
Apenas as guitarras sorriam

Com os braços estendidos
Não para o céu nem para ti
Mas para as estátuas escondidas num tecido branco
Sitiadas num espaço do Siza
Podia morrer abraçado
A qualquer delas
Que a cidade não se importava
Apenas as guitarras sorriam

Apenas as guitarras sorriam!