29 junho 2006

São pedro

Fui ver o São Pedro
À Póvoa e à Afurada

Nas Caixinas comi sardinhas
A pedido das vizinhas
Na Afurada vi o fogo
A pedido do inimigo
Enfim, sem sobressaltos,
Sem ver láminas
Nos asfaltos
Nos olhares negros
Do dia
Que esventram Portugal
Rezei pela noite dentro
No adro da igreja
De uma aldeia
Que coitada
Adormecera
Sem sorte
No respirar da morte
Mas a noite era uma criança
Que chorava no travesseiro
De uma donzela de Aveiro
Vestida de linho branco
Presa no seu lindo barco
Que coitada pedia ajuda
Ao passageiro vindo do nada
Mas ...
Era noite de folgar
Dançar com moçoilas bonitas
Que queriam rodopiar
Aprisionar
Apertar
Amar
Era o que estava a dar
E depois de ver o fogo
Multicolor no céu
O vermelho incandescente
Nas velhas casas de madeira
Os velhos e as velhinhas
A voarem nos seu papagaios de duas cores
Mergulhei no rio Douro
Acordei no Atlântico
Nadei para norte
E Graças a Deus
Almocei numa esplanada virada para poente
A ouvir
Uma música do Vitorino
- ... Menina que estás à janela ...
A pensar
Numa frase do Cardoso
- ... Hoje em dia até se rouba a morte a um individuo ....

20 junho 2006

Dificil

Quando ouço uma voz
Longinqua
Dos confins de outro mundo
Aguda e despertante
Sem sentido
E sem norte
E na qual eu me perco
E saboreio
As frutas multicolores
Dispersas num andor
Sem santos
Sem prantos
Sem dores
Acordo do cansaço milenar
E como sempre
Olho para o mar
E nas suas águas
Não se reflecte as suas filhas
As sereia do mar
E nas suas águas
Não nadam golfinhos, tubarões e baleias
Chatice!
Perdão!
Acabei de pescar
Um peixão
Quero dizer um robalão
Que coitado de saudade e solidão
Queria passar de mão em mão
Acabar no panelão
Dizendo, em voz alegre, com a barbatana pousada no coração,
Cansado de tanto lutar contra a maré
Estou pronto para o que der e o vier...............